Ontem, fez 30 anos que Clarice Lispector morreu, um mês depois de se descobrir com câncer. Pense num texto fundador de Brasília. Primeiro, claro, o projeto do Plano Piloto, texto urbanístico-humanista-literário de Lucio Costa. Depois dele… eu voto na primeira das duas crônicas de Clarice sobre a nova capital, considerada não apenas reveladora do espanto que a cidade inventada provocava nos espíritos desavisados, como também uma das melhores crônicas brasileiras de todos os tempos. Escolhi alguns trechos, os que me parecem mais arrebatadores, e deixo vocês nos braços de Clarice.
A crônica Nos Primeiros Começos de Brasília é de 1962, quando Brasília era completamente Brasília, maquete em tamanho natural de uma cidade construída no cocoruto do Planalto Central. Começa assim:
“Brasília é construída na linha do horizonte. Brasília é artificial. Tão artificial como devia ter sido o mundo quando foi criado. Quando o mundo foi criado, foi preciso criar um homem especialmente para aquele mundo. Nós somos todos deformados pela adaptação à liberdade de Deus. Não sabemos como seríamos se tivéssemos sido criados em primeiro lugar e depois o mundo deformado às nossas necessidades. Brasília ainda não tem o homem de Brasília. Se eu dissesse que Brasília é bonita veriam imediatamente que gostei da cidade. Mas se digo que Brasília é a imagem de minha insônia vêem nisso uma acusação. Mas a minha insônia não é bonita nem feia, minha insônia sou eu, é vivida, é o meu espanto.”
(….)
“Brasília nua me deixa beatificada. E doida. Em Brasília tenho que pensar entre parênteses. Me prendem por viver? É isso mesmo.”
(….)
“Vou agora escrever uma coisa da maior importância: Brasília é o fracasso do mais espetacular sucesso do mundo. Brasília é uma estrela espatifada. Estou abismada. É linda e é nua. O despudoramento que se tem na solidão. Ao mesmo tempo fiquei com vergonha de tirar a roupa para tomar banho. Como se um gigantesco olho verde me olhasse implacável. Aliás Brasília é implacável. Senti-me como se alguém me apontasse com o dedo: como se pudessem me prender ou tirar meus documentos, a minha identidade, a minha veracidade, o meu último hálito íntimo. “
(…)

“Olhe, Brasília, não sou dessas que andam por aí, não. Mais respeito, faça o favor. Sou uma viajante espacial. Muito respeito eu exijo. Muito Shakespeare. Ah que eu não quero morrer! Ai, que suspiro. Mas Brasília é a espera. E eu não agüento esperar. Fantasma azul. Ah, como incomoda. É como tentar lembrar-se e não conseguir. Quero esquecer de Brasília mas ela não deixa. Que ferida seca. Ouro. Brasília é ouro. Jóia. Faiscante. Tem coisa sobre Brasília que eu sei mas não posso dizer, não deixam. Adivinhem.”
Brasília é pra se adivinhar. E cada um que rale cotovelos, joelhos e alma para tentar decifrá-la e nessa tentativa aprender a amá-la.
Conceição Freitas